quarta-feira, 21 de junho de 2017

Relembrar URGÊNCIAS - Uma viagem na BARCA DO INFERNO

SAÚDE em Portugal - URGÊNCIAS - Uma viagem na BARCA DO INFERNO
(crónica de má viagem)

Sábado, 7 de Fevereiro, cerca das 22:30. Sentia-me mal, muito mal. O caminho apenas podia ser um: a Urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Esta urgência, era o princípio de Fevereiro, estava muito na berlinda e eu sabia os riscos a que ia mas, independentemente da qualidade do serviço, também sabia, e sei - pelos muitos anos que passei pelo serviço de saúde, que os hospitais estatais têm os melhores técnicos e as melhores e mais variadas condições tecnológicas. Ainda 2 dias antes tinha ido à urgência do Hospital da Luz e o diagnóstico, com alguns sintomas de senilidade, quase passou por AVC… Um TAC craniano, claro, nada acusou. Era o oxigénio, Sr. Dr. era o oxigénio...

Garcia de Orta, portanto...

Não conseguia respirar. Os meus pulmões não suportavam o ar que necessitavam que lá metesse.

Entrei de imediato. Como doente cardíaco dramaticamente inflacionei as dores no peito e lá fui eu!

Calhei com uma médica fabulosa de que, lamentavelmente, não consegui fixar o nome. Daquelas que dificilmente se apanham nas urgências, seja lá de que hospital. Uma espécie de versão feminina, simpática, de Dr. House, diligente, obstinada, sábia e... muito bonita. Os pulmões estariam fechados mas os olhos ficariam abertos...

Espetou-me com uma mascara, uma série de injecções, o costumeiro soro (até ao final da minha aventura levei mais de 60 litros daquilo... - acho que o meu sangue anda estará assim para o cor de rosa claro...), e vá de esperar para ver. Confesso que, ao contrário das notícias, me senti sempre acompanhado e informado mas isso depende sempre de quem se apanha, não é? Tive sorte - ou talvez não, talvez seja mesmo assim... ou talvez seja mesmo a ausência de oxigénio que me deixe mais molinho...

Vários exames - análises, TAC, RX, eu sei lá, deixavam cada vez mais duvidas e desde neoplasia, a tuberculose, a doenças mais estranhas que não consegui fixar o nome, percorri um tão largo espectro de doenças como o das bactérias que se divertiam no meu corpo. E pronto, tinha que ficar internado...
Aqui começou uma viagem maldita às reais urgências do Garcia de Orta. Aqui começou uma autêntica viagem de Barca do Inferno.

Seriam 3 da manhã quando subi para o piso 1 - o malfadado piso de internamento da urgência. Não deveria existir. Não pode existir! Existe apenas porque não existem cuidados intermédios ou os serviços lá para cima - para o céu, não têm lugar para quem leva alforria do inferno.

Espetaram comigo num corredor escuro e esperaram que alguém tivesse tempo para me ouvir e começar a tratar. A senilidade invadia-me. O oxigénio que eu precisava não era suficiente para a minha lucidez. A senilidade, tão presente nos últimos 2/3 dias, voltava a instalar-se. Havia uma certa folha Excel que se voltava a misturar com a bainha das minhas calças... talvez eu tenha tempo (ou vontade...) para explicar este meu ponto de vista lá mais para a frente...

O corredor acompanhava-me com uns poucos companheiros de infortúnio. Lá ao fundo, alguns técnicos, poucos, saltavam em grande azáfama - tanto quanto me parecia, de maca para maca e de queixume para queixume. Eu, por enquanto, ainda condescendia com as urgências dos outros. Ao fim de 2 horas, cansei-me e mandei um berro dando conta da minha existência e tentando manipular as prioridades. Sucesso!

"Que se passa senhor... (esta longa pausa parecia vinda lá do fundo do corredor) Fernando?" Mas não. Aquela voz estava logo ali, à minha cabeceira!

A partir daqui tudo melhorou. Fui medicado, levado para um espaço mais adequado (é a minha opinião...) junto ao posto de comando onde tinha os enfermeiros e enfermeiras logo á mão e os médicos também debaixo de olho. Tinha só para mim, luxo que me pareceu pouco excessivo, uma máquina que constantemente me media a tensão, pulsação e oximetria (oxigénio no sangue). Aparelhos destes seriam 3 ou 4 portáteis e 5 ou 6 fixos para 80, 90, 100 (?) doentes todos eles, tal como eu, parece que saídos de filmes de zombies da série B ou mesmo C... Eu, por mim, tinha um fixo e a minha maca estava protegida do ambiente baralhado do espaço principal onde as macas chocavam entre si à menor alteração de comportamento do sistema. Nunca vi a Lei de Murphy tão bem praticada. A porta do elevador abria e um frémito de excitação tinha imediatamente início... para onde vai aquela?

Era noite profunda e alguém teve a graça de me dar um soporífero... Dormi! Mal sabia o que me esperava quando acordasse…

Nunca acordei tão sozinho no meio de tanta gente (não esqueçam que sou militar e as camaratas não são, para mim, segredo)… dormi uma ou duas horas que me pareceram nada. O meu filho, que me tinha acompanhado e admiravelmente apoiado toda a noite anterior, desaparecera e perdi todas as minhas referências. Estava completamente sozinho…!

Tudo à minha volta estava num virote. Enfermeiros e enfermeiras, enquanto penduravam soros e antibióticos, davam injecções e mudavam pensos, cumprimentavam-se e despediam-se. Alguns e algumas choravam. Outros apresentavam-se acabrunhados. Rapidamente aprendi que o choro e o queixume são comuns por aqui, mas não de enfermeiros... Não entendi… Entendi mais tarde. Acabavam contractos e iniciavam outros… A contratação (que não a cessação) irá justificar a estatística…

Mas, para mim, ainda pouco apegado a estas coisas terrenas, aquelas eram, por enquanto, contas de outro rosário… Com tanto soro o que eu queria era verter os excessos do mesmo que me dilaceravam a bexiga. Ainda me pergunto se nos dão o soro para efeitos medicinais ou para mantermos alguma actividade física. Foi por muitos dias o único motivo porque me mexi da maca…

Ah e após resolver este problema através de um frasco apropriado (que, invariavelmente, enchia com maior velocidade do que os auxiliares e enfermeiros tinham possibilidade de despejar...) tentaram resolver-me o outro com a oferta de uma arrastadeira… Aceitei a contragosto. Não me imaginava naquilo. Deitado? Aquilo usa-se deitado? Com gente consciente? Testei durante 2 segundos. Não deu… tinha de me levantar apesar de todas as contra indicações.

Sorrateiramente, no meio de dezenas de doentes e alguns enfermeiros e enfermeiras, peguei no varão do soro e procurei a casa de banho mais próxima. Empecei várias vezes mas descobri-a sem que ninguém me impedisse o caminho. Entrei, sentei-me aos tropeções na sanita e levantei os olhos para dois cadáveres que aguardavam, em duas macas junto à parede, a disponibilidade de um auxiliar para ir para a morgue… Não foi a morte que me abalou ou assustou. Foi o desprezo da cena. Duas pessoas (eles, dois homens) mais uma (eu) em condições absolutamente opostas. Quadro indescritível apenas disfarçado pelo deficit de oxigénio que padecia. Não consigo arranjar palavras... O que isto me custa escrever...

Mas o nosso instinto de sobrevivência é algo… Saí mal terminei, porque terminei, como se nada fosse e encarei com um auxiliar que me olhou de forma muito reprovadora. Eu não devia ter ido ali… Eu não devia ter ido ali...

Mecanicamente, aqueles enfermeiros e enfermeiras, foram cumprindo as suas rotinas e comigo pareciam muito mais amigáveis do que com os outros. Eu não me queixava… era bem-mandado… o cantinho onde a minha maca estava era zona protegida e apenas o ruído de fundo, ululante ou histriónico, como que em vagas, bem me avisava de outras guerras mas que, por enquanto, me incomodavam egoisticamente pouco. Pedir auxílio a um enfermeiro ou enfermeira pareciam-me crime tal a compaixão que eles me infligiam.

Noutra visita à casa de banho, ao fim do dia, voltei a encontrar dois novos cadáveres. Estes estavam agora cobertos e o calo fez-me acolher a cena como um profissional – sem qualquer compaixão, comiseração ou mesmo espaço mental de interiorização…

Assim passei o primeiro dia.

Acordei (como sempre nos próximos trinta e tal dias) cerca das seis e meia da manhã. O rush-rush do banho e dos primeiros medicamentos do dia eram a corneta do despertar. E a minha maca moveu-se…
Um urgente mais urgente vinha ocupar o meu lugar e a minha sorte estava traçada. Ia para o meio da turba.

Junto a mim não parecia haver gente como eu. Os outros zombies não iam à casa de banho e gritavam ajuda, carinho, atenção. Oitenta para quatro ou cinco enfermeiros que sempre que podiam se tentavam apoiar nos dois ou três médicos…

E de repente percebi. Não era só eu que estava ali. Os outros eram também eu. Eu podia ser um deles. Afinal eu não era (não sou!) tão especial como julgava. Eu podia querer ter ajuda. Eu podia necessitar de carinho, atenção. Afinal também eu estava sozinho. Eu podia, como eles, morrer só! E no meio daquelas macas, todas de braço dado, em que um toque numa (e quantos toques eram…) implicava quase uma explosão em todas as outras sobressaltando as réstias de energia da maioria de nós. Sim, quando passei para aqui também eu fui invadido pela prostração e integrei o espírito do grupo. Colocarem-me aqui foi a demonstração de que eu não era especial como julgava até aqui. Também eu posso morrer assim…

E chorei. Baixinho. Chorei… Ninguém pode acabar assim. Numa maca, num canto, sozinho…

A Ana chegou. Era hora de visita. E voltei a chorar no seu colo sussurrando “Ana, eu não pertenço aqui. Não quero pertencer, aqui!”. E, no seu colo, senti-me de novo um pouco especial...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Incêndios e especialistas...


Serei só eu?

Fico pasmado com a facilidade que especialistas e aspirantes falam de ordenação do território como se este fosse uma folha de papel em branco e sem gente, cultura ou sentimento.

Pelo que tenho ouvido Portugal estará bem se as estradas sejam elas nacionais, regionais, locais, caminhos ou veredas, parecerem pistas de aeroporto. 10 metros para cada lado e não se fala mais nisso.

Quanto às habitações sejam no Minho, Trás-os-Montes, Pinhal Litoral ou Interior, Ribatejo ou Algarve passarão a ser, todas elas, Montes Alentejanos com os 50 metros da ordem de deserto à sua volta.

As povoações voltarão aos tempos medievais e terão 100 metros de terreno árido (talvez permitam um relvadinho...) a toda a sua volta permitindo a rápida detecção da chegada do inimigo - normalmente espanhol - que agora até nos manda aviões...

Tudo isto afirmado com a maior das certezas e credibilidade...

Todos se esquecem das queixas da população: perderam a electricidade, a água, as comunicações e os bombeiros não apareceram... Se isto funcionasse talvez conseguissem impedir o avanço das chamas. Mas isto não interessa nada...

Fornecer ou subsidiar geradores, poços, bombas de água às populações está fora de causa. Fornecer equipamentos básicos de combate a incêndios mesmo a pequenos aglomerados populacionais nem se põe.

Fechem-se bancos, correios, tribunais, centros de saúde, escolas. Feche-se tudo isto e depois peçam às pessoas que se mantenham em montes alentejanos ou aldeias despojadas do verde que nós todos adoramos que elas entenderão...

Até acredito que seja o passar dos anos numa luta inglória que tolde a visão à maior parte deles mas que me parecem fora da realidade, parecem!

Que os mortos descansem em paz!