Nesta estória da prisão preventiva existe algo que me parece realmente muito estranho.
Vamos partir do principio de que a prisão de Sócrates é legítima. Existirá perigo de fuga (estranho para quem podia trocar o bilhete para o Brasil a partir de Paris e ir 2 dias mais cedo ao invés de se "apresentar" em Lisboa ao MP e pensar depois ir para o Brasil...), existirá perigo de perturbar o inquérito, e existirá perigo de continuar a actividade criminosa... Acresce ainda a impossibilidade de fazer declarações públicas (através de entrevistas aos média)...
Tudo isto é demasiado estranho para, por si só, ser credível na sua isenção.
É que, para aumentar a estranheza de tudo isto, é o que se passa com o BES. Ouvimos constantemente frases como "[eu, como DDT] não sabia", "não me lembro de quem recebi 1 milhão", "não posso responder porque está em segredo de justiça", "só soube com o [último] relatório de auditoria" e bem maiores atoardas que nos fazem a todos sorrir.
Como pode tudo o que foi evocado para Sócrates não o ser minimamente para todos aquelas personagens do BES que podem, e, fazem-no, relatar aos sete ventos da sua razão? Como pode não ser considerado o risco de fuga (que julgo não haverá para nenhum, mas não é esse o caso...), perturbar o inquérito (que maior perturbação ao inquérito que o que a audição parlamentar está a fazer????) ou o perigo de continuar a actividade criminosa quando estes senhores continuam a ter acesso às suas "deliciosas e recheadas" contas off-shore, estas sim MANIFESTAMENTE DECLARADAS E COMPROVADAS? É que as de Sócrates são, tanto quanto se sabe, "apenas" fortemente suspeitas...
Nada me move na minha confiança na justiça e é por isso mesmo que sei que mais cedo ou mais tarde se provará quem tem razão e quem deve, ou não, ser punido. Essa não é nem nunca será a questão. A questão é o caminho para a justiça e no caso de Sócrates parece-me claramente um absurdo quando comparado, quer com o sistema jurídico e a norma portuguesa quer com os outros exemplos referidos e muitos outros...
Fernando Lourenço Gomes
16.12.2014
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