SAÚDE em Portugal - URGÊNCIAS - Uma viagem na BARCA DO INFERNO (2.ª parte)
(crónica de má viagem)
(LER PARTE 1)
Nunca acordei tão sozinho no meio de tanta gente (não esqueçam que sou militar e as camaratas não são, para mim, segredo)… dormi uma ou duas horas que me pareceram nada. O meu filho, que me tinha acompanhado e admiravelmente apoiado toda a noite anterior, desaparecera e perdi todas as minhas referências. Estava completamente sozinho…!
Tudo à minha volta estava num virote. Enfermeiros e enfermeiras, enquanto penduravam soros e antibióticos, davam injecções e mudavam pensos, cumprimentavam-se e despediam-se. Alguns e algumas choravam. Outros apresentavam-se acabrunhados. Rapidamente aprendi que o choro e o queixume são comuns por aqui, mas não de enfermeiros... Não entendi… Entendi mais tarde. Acabavam contractos e iniciavam outros… A contratação (que não a cessação) irá justificar a estatística…
Mas, para mim, ainda pouco apegado a estas coisas terrenas, aquelas eram, por enquanto, contas de outro rosário… Com tanto soro o que eu queria era verter os excessos do mesmo que me dilaceravam a bexiga. Ainda me pergunto se nos dão o soro para efeitos medicinais ou para mantermos alguma actividade física. Foi por muitos dias o único motivo porque me mexi da maca…
Ah e após resolver este problema através de um frasco apropriado (que, invariavelmente, enchia com maior velocidade do que os auxiliares e enfermeiros tinham possibilidade de despejar...) tentaram resolver-me o outro com a oferta de uma arrastadeira… Aceitei a contragosto. Não me imaginava naquilo. Deitado? Aquilo usa-se deitado? Com gente consciente? Testei durante 2 segundos. Não deu… tinha de me levantar apesar de todas as contra indicações.
Sorrateiramente, no meio de dezenas de doentes e alguns enfermeiros e enfermeiras, peguei no varão do soro e procurei a casa de banho mais próxima. Empecei várias vezes mas descobri-a sem que ninguém me impedisse o caminho. Entrei, sentei-me aos tropeções na sanita e levantei os olhos para dois cadáveres que aguardavam, em duas macas junto à parede, a disponibilidade de um auxiliar para ir para a morgue… Não foi a morte que me abalou ou assustou. Foi o desprezo da cena. Duas pessoas (eles, dois homens) mais uma (eu) em condições absolutamente opostas. Quadro indescritível apenas disfarçado pelo deficit de oxigénio que padecia. Não consigo arranjar palavras... O que isto me custa escrever...
Mas o nosso instinto de sobrevivência é algo… Saí mal terminei, porque terminei, como se nada fosse e encarei com um auxiliar que me olhou de forma muito reprovadora. Eu não devia ter ido ali… Eu não devia ter ido ali...
Mecanicamente, aqueles enfermeiros e enfermeiras, foram cumprindo as suas rotinas e comigo pareciam muito mais amigáveis do que com os outros. Eu não me queixava… era bem-mandado… o cantinho onde a minha maca estava era zona protegida e apenas o ruído de fundo, ululante ou histriónico, como que em vagas, bem me avisava de outras guerras mas que, por enquanto, me incomodavam egoisticamente pouco. Pedir auxílio a um enfermeiro ou enfermeira pareciam-me crime tal a compaixão que eles me infligiam.
Noutra visita à casa de banho, ao fim do dia, voltei a encontrar dois novos cadáveres. Estes estavam agora cobertos e o calo fez-me acolher a cena como um profissional – sem qualquer compaixão, comiseração ou mesmo espaço mental de interiorização…
Assim passei o primeiro dia.
Acordei (como sempre nos próximos trinta e tal dias) cerca das seis e meia da manhã. O rush-rush do banho e dos primeiros medicamentos do dia eram a corneta do despertar. E a minha maca moveu-se…
Um urgente mais urgente vinha ocupar o meu lugar e a minha sorte estava traçada. Ia para o meio da turba.
Junto a mim não parecia haver gente como eu. Os outros zombies não iam à casa de banho e gritavam ajuda, carinho, atenção. Oitenta para quatro ou cinco enfermeiros que sempre que podiam se tentavam apoiar nos dois ou três médicos…
E de repente percebi. Não era só eu que estava ali. Os outros eram também eu. Eu podia ser um deles. Afinal eu não era (não sou!) tão especial como julgava. Eu podia querer ter ajuda. Eu podia necessitar de carinho, atenção. Afinal também eu estava sozinho. Eu podia, como eles, morrer só! E no meio daquelas macas, todas de braço dado, em que um toque numa (e quantos toques eram…) implicava quase uma explosão em todas as outras sobressaltando as réstias de energia da maioria de nós. Sim, quando passei para aqui também eu fui invadido pela prostração e integrei o espírito do grupo. Colocarem-me aqui foi a demonstração de que eu não era especial como julgava até aqui. Também eu posso morrer assim…
E chorei. Baixinho. Chorei… Ninguém pode acabar assim. Numa maca, num canto, sozinho…
A Ana chegou. Era hora de visita. E voltei a chorar no seu colo sussurrando “Ana, eu não pertenço aqui. Não quero pertencer, aqui!”. E, no seu colo, senti-me de novo um pouco especial...
(continua)
Fernando Lourenço Gomes
A "Estrada" não é tão grande assim!
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