quinta-feira, 26 de março de 2015

SAÚDE em Portugal - URGÊNCIAS ..... Uma viagem na BARCA DO INFERNO ...... (1.ª parte)

SAÚDE em Portugal - URGÊNCIAS - Uma viagem na BARCA DO INFERNO (1.ª parte)
(crónica de má viagem)

Sábado, 7 de Fevereiro, cerca das 22:30. Sentia-me mal, muito mal. O caminho apenas podia ser um: a Urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Esta urgência, era o princípio de Fevereiro, estava muito na berlinda e eu sabia os riscos a que ia mas, independentemente da qualidade do serviço, também sabia, e sei - pelos muitos anos que passei pelo serviço de saúde, que os hospitais estatais têm os melhores técnicos e as melhores e mais variadas condições tecnológicas. Ainda 2 dias antes tinha ido à urgência do Hospital da Luz e o diagnóstico, com alguns sintomas de senilidade, quase passou por AVC… Um TAC craniano, claro, nada acusou. Era o oxigénio, Sr. Dr. era o oxigénio...

Garcia de Orta, portanto...

Não conseguia respirar. Os meus pulmões não suportavam o ar que necessitavam que lá metesse.

Entrei de imediato. Como doente cardíaco dramaticamente inflacionei as dores no peito e lá fui eu!

Calhei com uma médica fabulosa de que, lamentavelmente, não consegui fixar o nome. Daquelas que dificilmente se apanham nas urgências, seja lá de que hospital. Uma espécie de versão feminina, simpática, de Dr. House, diligente, obstinada, sábia e... muito bonita. Os pulmões estariam fechados mas os olhos ficariam abertos...

Espetou-me com uma mascara, uma série de injecções, o costumeiro soro (até ao final da minha aventura levei mais de 60 litros daquilo... - acho que o meu sangue anda estará assim para o cor de rosa claro...), e vá de esperar para ver. Confesso que, ao contrário das notícias, me senti sempre acompanhado e informado mas isso depende sempre de quem se apanha, não é? Tive sorte - ou talvez não, talvez seja mesmo assim... ou talvez seja mesmo a ausência de oxigénio que me deixe mais molinho...

Vários exames - análises, TAC, RX, eu sei lá, deixavam cada vez mais duvidas e desde neoplasia, a tuberculose, a doenças mais estranhas que não consegui fixar o nome, percorri um tão largo espectro de doenças como o das bactérias que se divertiam no meu corpo. E pronto, tinha que ficar internado...
Aqui começou uma viagem maldita às reais urgências do Garcia de Orta. Aqui começou uma autêntica viagem de Barca do Inferno.

Seriam 3 da manhã quando subi para o piso 1 - o malfadado piso de internamento da urgência. Não deveria existir. Não pode existir! Existe apenas porque não existem cuidados intermédios ou os serviços lá para cima - para o céu, não têm lugar para quem leva alforria do inferno.

Espetaram comigo num corredor escuro e esperaram que alguém tivesse tempo para me ouvir e começar a tratar. A senilidade invadia-me. O oxigénio que eu precisava não era suficiente para a minha lucidez. A senilidade, tão presente nos últimos 2/3 dias, voltava a instalar-se. Havia uma certa folha Excel que se voltava a misturar com a bainha das minhas calças... talvez eu tenha tempo (ou vontade...) para explicar este meu ponto de vista lá mais para a frente...

O corredor acompanhava-me com uns poucos companheiros de infortúnio. Lá ao fundo, alguns técnicos, poucos, saltavam em grande azáfama - tanto quanto me parecia, de maca para maca e de queixume para queixume. Eu, por enquanto, ainda condescendia com as urgências dos outros. Ao fim de 2 horas, cansei-me e mandei um berro dando conta da minha existência e tentando manipular as prioridades. Sucesso!

"Que se passa senhor... (esta longa pausa parecia vinda lá do fundo do corredor) Fernando?" Mas não. Aquela voz estava logo ali, à minha cabeceira!

A partir daqui tudo melhorou. Fui medicado, levado para um espaço mais adequado (é a minha opinião...) junto ao posto de comando onde tinha os enfermeiros e enfermeiras logo á mão e os médicos também debaixo de olho. Tinha só para mim, luxo que me pareceu pouco excessivo, uma máquina que constantemente me media a tensão, pulsação e oximetria (oxigénio no sangue). Aparelhos destes seriam 3 ou 4 portáteis e 5 ou 6 fixos para 80, 90, 100 (?) doentes todos eles, tal como eu, parece que saídos de filmes de zombies da série B ou mesmo C... Eu, por mim, tinha um fixo e a minha maca estava protegida do ambiente baralhado do espaço principal onde as macas chocavam entre si à menor alteração de comportamento do sistema. Nunca vi a Lei de Murphy tão bem praticada. A porta do elevador abria e um frémito de excitação tinha imediatamente início... para onde vai aquela?

Era noite profunda e alguém teve a graça de me dar um soporífero... Dormi! Mal sabia o que me esperava quando acordasse…

(continua) (LER A 2.ª PARTE)

Fernando Lourenço Gomes

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